segunda-feira, agosto 21, 2017

A BESTIALIZAÇÃO (DE UMA PARTE) DO POVO BRASILEIRO.....

A bestialização do povo brasileiro

por Aldo Fornazieri

Diante do fracasso histórico dos setores progressistas e de esquerda é forçoso reconhecer que eles mesmos foram co-artífices desse fracasso e que contribuíram significativamente para com a manutenção das subalternidade das classes populares à hegemonia das elites econômicas e políticas do país. Em outras palavras: contribuíram para com a manutenção do povo brasileiro na condição de bestializado.


Como se sabe, a ideia de um povo bestializado foi criada pelo jornalista, jurista e político Aristides Lobo no contexto da passeata militar que proclamou a República. Ao testemunhar aquela passeata, comandada por um marechal monarquista, Lobo escreveu: "O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem saber o que significava". A coisa do povo - a res publica - nascia, desta forma, sem povo. Pior ainda, nascia sem povo, sem armas e sem terras, logo após a Abolição, levada a efeito por uma princesa que era mais uma carola de sacristia do que propriamente uma estadista.

Assim nascera também a Independência, emergida de um grito abestalhado do filho do monarca metropolitano . O novo país que nascia não era soberano, mas uma extensão da Coroa portuguesa. Note-se ainda que todas as revoltas pré-independência se definiram por duas características: ou eram conspirações de pequenos grupos ou tinham uma dimensão popular, mas localizada e isolada em determinadas províncias. Nunca houve um movimento nacional-popular que construísse um sentido de unidade de um povo. O único movimento que conseguiu imprimir uma dimensão nacional-popular, mesmo que parcial, foi a Revolução de 1930 e varguismo.

Mas o varguismo foi também uma via estatal de modernização, assim como foi a redemocratização de 1945, o golpe militar de 1964, a campanha das diretas com seu desfecho no Colégio Eleitoral, a Constituinte e, finalmente, os governos petistas. Todos esses processos, alguns com sentido contrário aos outros como foi o caso do golpe militar, buscaram a modernização do país e a mudança pela via do Estado, pelo alto, com negociações e conciliações com as elites. As chamadas classes populares nunca tiveram um protagonismo. A nova Constituição não significou uma refundação democrática e cidadã do Brasil, pois o povo não foi chamado a se pronunciar acerca dela por meio de um referendum. O povo nunca foi o sujeito constituinte da soberania nacional.

Ao se fazer essas constatações de natureza histórica não se pretende menosprezar as importantes contribuições do varguismo, do antigo PTB e do PT em avanços sociais. O que se quer dizer é que, mesmo com esses avanços, a derrota histórica dos progressistas e das esquerdas não pode não ser assinalada. E mais do que isto: o que se quer dizer é que os progressistas e as esquerdas adotaram estratégias que podem ser inseridas no conceito de revolução passiva, elaborado por Antônio Gramsci a partir de um livro de história da Revolução Napolitana de 1799, escrito por Vincenzo Cuoco.

Mudança de Estratégia

Em síntese, Gramsci entende por revoluções passivas todos os processos de transformação que podem vir por reformas, guerras, golpes etc., sem passar por uma revolução política de tipo "radical-jacobina". Isto quer dizer: sem uma participação efetiva das classes populares que, desta forma, não criam uma vontade coletiva nacional-popular. Em outras palavras: não há um processo constituinte, da sociedade contra o Estado, de um povo com consciência nacional. Assim, muitas revoluções têm um caráter restaurador e muitos governos progressistas terminam fracassando, abrindo as portas para a restauração conservadora. No Brasil, sequer houve uma reforma agrária radical-jacobina tal como ocorreu na França. As mudanças que ocorreram no campo ficaram muito aquém do próprio processo de distribuição de terras que ocorreu nos Estados Unidos.

Quando setores populares e progressistas participaram dessas tentativas modernização, fracassaram. Fracassaram com Vargas, com Jango, com as Diretas, com a Constituinte e com os governos do PT. Os momentos subsequentes a esses governos foram restaurações conservadoras. A singularidade desses governos, partidos e movimentos é que sempre buscaram atuar mais no Estado do que na sociedade civil e nos movimentos sociais. Nos momentos dos embates e de ruptura dos débeis processos democráticos não tinham força para resistir, não tinham força para impor um momento "radical-jacobino".

Tudo isto indica que as esquerdas estão adotando estratégias erradas ou parciais. Não há como sustentar reformas e mudanças mais radicais sem conseguir que as classes populares e os movimentos sociais se articulem em organizações consistentes da sociedade civil, sofram um processo de mudança de cultura e de consciência por um intenso trabalho crítico e formativo e se tornem o centro das lutas e das mobilizações políticas. Não há como criar uma vontade coletiva nacional-popular, adverte Gramsci, sem que os diversos grupos sociais urbanos e do campo irrompam na vida política.

Os progressistas e as esquerdas não conseguem tirar as camadas subalternas da hegemonia das elites conservadoras que permitem apenas definir as lutas no campo do corporativismo e, mesmo assim, com um recorrentes recuos na garantia de direitos. Gramsci preconiza que a luta anti-hegemônica e a construção de uma nova hegemonia requer uma reforma intelectual, cultural e moral associada a um programa de reforma econômica. Os partidos e os movimentos devem subverter "todo o sistema de relações intelectuais e morais", retirando o povo de sua condição de "massa de manobra", de bestializado.

A impotência dos partidos progressistas e de esquerda de promoverem uma reforma intelectual, cultural e moral, articulada com um programa de reforma econômica, abriu o campo das periferias para que as igrejas evangélicas e pentecostais fizessem a reforma religiosa. A reforma religiosa conduz as massas periféricas para uma condição de subalternidade ainda mais aguda, mais conservadora, aprofundado sua condição de "massa de manobra", que se entrega a líderes, a partidos e a governos retrógrados, anti-sociais e anti-direitos.

Os partidos e movimentos sociais progressistas e de esquerda precisam ser ativos e atuantes nessa disputa de concepções de mundo e de valores através da propaganda, formação e organização dos vários grupos e segmentos sociais. Sem a criação desse terreno propício ao desenvolvimento de uma vontade e de uma força politicamente ativa nacional-popular o Brasil terá seu futuro condenado e nenhuma transformação modernizadora de sentido progressista se fará efetiva. Os campos largos da periferia ficarão a mercê da reforma religiosa conservadora e do crime organizado. Os joãos trabalhadores da demagogia e do charlatanismo e outras expressões autoritárias terão um terreno fértil para colher votos e vitórias eleitorais.

Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).
Continue a leitura››

sábado, agosto 19, 2017

QUANDO A PREGUIÇA É MAIOR QUE A FALTA DE CARÁTER.... A DECADÊNCIA DE UMA MÍDIA VAGABUNDA....

O jornalismo preguiçoso. Ou apenas vagabundo
CARLOS MOTTA

SAB, 19/08/2017 - 11:50

O estranho caso da suposta herdeira do banqueiro suíço que prometeu doar uma bolada para que o ex-presidente Lula possa tocar a sua vida, já que a "Justiça" brasileira quer privá-lo de qualquer meio de subsistência enquanto não o trancafia numa cela, demonstrou, de maneira inequívoca, que o jornalismo brasileiro é o mais preguiçoso, irresponsável e vagabundo do universo.

A moça pode até mesmo ser o que diz que é, embora existam, como levantou o jornalista Luis Nassif, enormes suspeitas de que ela seja tão somente uma impostora, ou então alguém que sofre de algum transtorno psicológico, como a mitomania, mas isso é o que menos importa.

O triste de toda essa história é constatar que a imprensa brasileira, com raríssimas exceções, não observa nem as mais básicas e elementares regras do jornalismo.

Uma delas, que qualquer "foca" conhece, é checar as fontes de informação, para que não se dê crédito a lunáticos, malucos, napoleões de hospício, ou mesmo a espertalhões, pilantras e picaretas em geral, que adoram usar a imprensa para atingir seus propósitos.

​O jornalismo brasileiro, já se sabe há algum tempo, virou uma grande agência de publicidade, que trabalha dia e noite para preservar os imensos e seculares privilégios da classe social dos donos das empresas de comunicação, ou seja, dos endinheirados que mandam e desmandam neste país.

Mas eles bem que poderiam fazer este trabalho sujo com um pouco mais de competência.

Do jeito que está, fica fácil aparecer mais umas tantas "herdeiras" para engabelar esses jornalistas de meia pataca que se acham os tais.

O caso da moça me fez lembrar de uma história ocorrida lá pelo ano de mil novecentos e oitenta e pouco, no falecido jornal "Jundiaí Hoje", quando começaram a ocorrer algumas coisas estranhas: as notícias mais interessantes de esportes estavam saindo também num dos concorrentes.

Não podia ser coincidência, atestava o saudoso Ademir Fernandes, mestre em jornalismo e em bom humor, que tocava, praticamente sozinho, a editoria - Ademir, para quem não o conheceu, foi um dos mais profícuos e respeitados profissionais que passaram pelo "Jornal da Tarde" e Agência Estado.

Pois bem, ele desconfiava que o jornal estava sendo vítima de um "vazamento" - claro que a palavra, naquela época não estava tão em voga quanto hoje. A suspeita recaía sobre uma digitadora de texto cujo marido era repórter esportivo do concorrente.

Assim, armou a armadilha: escreveu uma matéria com alguns detalhes que inventou - nada que comprometesse a veracidade da história.

Não deu outra: no dia seguinte, lá estava a notícia no concorrente, igualzinha. A tal digitadora acabou confessando seu "crime". Levou uma bronca daquelas e a vida continuou.

O estratagema inventado pelo Ademir foi simples e eficaz. Desmascarou a impostura de maneira incontestável.

E mostrou uma face detestável do jornalismo, essa marcada pela negligência, preguiça e "esperteza".

Dói saber que pouca coisa mudou de lá para cá - e se mudou, foi para pior.
Continue a leitura››

A MÍDIA CANALHA E SEU PASSATEMPO FAVORITO: DESTRUIR REPUTAÇÕES....IMPUNEMENTE... SEM LIMITES

Quando a mídia atropela reputações
Por Rogério Christofoletti em 31/05/2016 na edição 905

Você acreditaria mais numa foto ou nas palavras de um político? O comportamento-padrão nos leva a escolher a primeira opção. Afinal, estamos vendo algo, tendo algum contato com o fato, enquanto que as falas dos políticos são tão fugidias quanto a areia que escorre pelos dedos! Sim, a maioria das pessoas age e raciocina assim, o que não é condenável; é apenas sinal dos tempos. Entretanto, pense ainda que tal foto mostre um vereador acessando conteúdos pornográficos em plena sessão da Câmara e que ele justifique estar com seu computador infectado por vírus.

O quadro não muda, não é verdade? Aliás, só piora, pois o flagrante ajuda a revelar uma faceta ainda desconhecida daquele representante político e sua ousadia em praticar atos distantes de sua função pública na frente de todos! Mas vamos adiante um pouco mais. Imagine ainda que o vereador flagrado seja o único representante de um partido de oposição, em rápido processo de deterioração de imagem, e a tal foto seja espalhada pela mídia a poucos meses das eleições municipais. Tenha em conta ainda que a imagem não foi captada originalmente pelos repórteres fotográficos dos meios que cobrem as sessões da Câmara, mas reproduzida a partir de um site menor, pouco conhecido.

Infelizmente, este episódio não é fictício. Aconteceu no final de abril em Florianópolis, tendo como pivô da discussão o vereador Lino Peres (PT) e uma fotografia publicada inicialmente na página do Facebook do site Fl0r1p4M1lGr4u, e replicada em sites e jornais de todo o Brasil! Sem crédito de autoria, a imagem mostra o vereador de costas para a câmera diante do computador, cuja tela exibe mulheres nuas. A cena se passa no plenário da Câmara Municipal de Florianópolis em meio à sessão ordinária do dia 26 de abril. Divulgada na fanpage no dia seguinte, a fotografia “viralizou”, e foi reproduzida sem qualquer pudor ou rigor jornalístico em meios de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia, Piauí, Mato Grosso do Sul, Alagoas, Rio Grande do Norte, Tocantins, e em portais nacionais como o Yahoo! Notícias e o R7.

Embora a imagem não indicasse como foi feita nem quem a produziu, e ainda que o Fl0r1p4M1lGr4u se considere uma página de humor, a mídia fez a festa, apoiando o noticiário na fotografia apócrifa e sem mais detalhes.

Ainda no dia 27 de abril, a assessoria do vereador se apressou a divulgar nota negando a intenção de acesso àqueles conteúdos e ainda forneceu trecho da gravação em vídeo do momento em que Lino Peres comunicou à mesa diretora que algo estava errado com seu computador. O PT também lançou uma nota pública, repudiando os ataques ao correligionário, condenando o “oportunismo” e a “espetacularização” da divulgação em massa.

Nas redes sociais e nos portais noticiosos, a imagem se espalhou sem controle, e o político foi massacrado nos comentários raivosos, irônicos e moralistas.

Lino Peres registrou boletim de ocorrência e solicitou ao setor de tecnologia da informação da Câmara avaliação do equipamento. Dois laudos distintos foram feitos e os peritos comprovaram que o vereador não fez busca por site impróprio no computador nem navegou naqueles conteúdos durante a fatídica sessão. Comprovada a fraude, o político convocou uma coletiva de imprensa para apresentar o resultado da perícia, mas o estrago já estava feito.

Cadê os limites?

Se isso aconteceu com um político – que geralmente tem mais condições de defesa – por que não aconteceria com um cidadão comum? É bem verdade que um episódio cujo protagonista é um homem público pode ter tornado a narrativa mais atraente para os jornalistas e interessados no escândalo. Adicionem-se a isso algumas doses de moralismo (afinal, era um site pornográfico) e a carga política que se poderia dar ao caso. Diversos sites fizeram questão de trazer nas manchetes que o vereador acusado era do PT, e o BlastingNews, foi além, relacionando o ocorrido com outras polêmicas do partido:

Sem título Alguns veículos de informação deram a versão inicial do político – a suspeita de vírus – e ainda ouviram os responsáveis pela página Fl0r1p4M1lGr4u, que atestaram que a fotografia era “real” e havia sido feita no dia da sessão. Mas os administradores da fanpage não disseram quem fez o registro nem como. Fica evidente que os veículos não certificaram a autenticidade da foto – poderia ser uma montagem! – confiaram na declaração do site de humor, e reproduziram o conteúdo, contribuindo para uma impiedosa espiral de pré-julgamento do vereador.

Uma vez na rede, qualquer conteúdo pode ser replicado ao infinito, com muito pouco a fazer para estancar seu progresso. O material pode ser uma importante e bem apurada denúncia jornalística contra os poderosos de plantão, mas também pode ser um conteúdo de origem duvidosa, fora de contexto, que induza ao erro e que fortaleça uma campanha difamatória. Foi o que ocorreu com o vereador neste caso, onde erros e deslizes éticos se acumularam.

É esperado que o jornalismo fiscalize os políticos, que morda os calcanhares dos poderosos, mas este exercício de contrapoder deve estar equilibrado em apuro técnico, em rigor investigativo, e em altos padrões éticos. Se seguir essa trilha, repórteres e editores não estarão fazendo nada além do que deles se espera – jornalismo! Mas se tropeçarem no caminho, seu trabalho estará contaminado e poderá ser questionado, e sua função na democracia terá falhado.

Uma sindicância foi aberta na Câmara de Florianópolis, inquérito policial foi instaurado e o vereador estuda acionar alguns veículos da mídia pedindo direito de resposta e danos morais. Mas este é o caminho jurídico, que pode ser longo e incerto. Interessa também discutir pelo viés da deontologia jornalística onde teriam errado os colegas…

Jogo dos 7 erros

Pelo menos sete deslizes éticos foram cometidos no Caso Lino Peres. Não é meu propósito apontar quem errou mais e onde, mas sim discutir a natureza desses equívocos que poderiam ter sido evitados.


Erro #1: publicaram um material apócrifo e que sem checar sua autenticidade. A foto da fanpage do Fl0r1p4M1lGr4u não tinha assinatura e poderia ser resultado de manipulação de imagem, como a que El País reproduziu em janeiro de 2013 e que se revelou falsa. À época, o jornal espanhol trouxe na capa uma foto do então-presidente venezuelano Hugo Chávez entubado, o que provaria seu estado de saúde debilitado. Os editores da capa não se preocuparam em verificar a veracidade da foto, que havia sido enviada por um repórter free-lancer que prestava serviços ao jornal há algum tempo. Quando perceberam o erro, recolheram milhares de exemplares que já estavam à venda nas ruas. No caso Lino Peres, a mídia replicou uma foto sem saber quem a havia produzido, simplesmente colhendo o material no Facebook.

Erro #2: usar material de terceiros, cujas credenciais podem ser suspeitas. A foto que flagra o vereador diante do computador foi obtida numa fanpage de um site humorístico! Não se trata propriamente de uma fonte de caráter jornalístico, que prime pela exclusividade ou por alguma seriedade do tipo. Em tempos de memes, de piadas virtuais e boatos desenfreados, poderia ser mais uma armadilha. Era. Mas os jornalistas confiaram cegamente e levaram a coisa adiante.

Erro #3: publicar algo que já tenha sido publicado por um grande meio, acreditando na sua credibilidade jornalística. No Caso Lino Peres, alguns portais menores atribuíram a foto e a denúncia contra o vereador ao jornal Extra e ao Yahoo! Notícias. Impossibilitados de checar a notícia, acreditaram em veículos com mais estrutura, mais rigor ou mais proximidade. Um conhecido manipulador da mídia norte-americana, Ryan Holiday, chama a esse processo de “delegação de confiança”, estratégia simples e bastante utilizada e que revela a precariedade do sistema de verificação do jornalismo. Nem todos os elos da cadeia informativa confirmam as informações que publicam, mas confiam em veículos que pretensamente teriam tal preocupação, e nesse jogo de empurra-empurra, muitas informações podem passar pela peneira sem qualquer filtro de apuração, uma fragilidade estarrecedora.

Erro #4: embarcar na polarização partidária e se deixar fazer uso. Com o país dividido politicamente e com a proximidade das eleições municipais, é muito provável que os mais diversos grupos queiram assumir um protagonismo no noticiário. Após o processo de impeachment de Dilma Rousseff e os desgastes dos partidos desde os protestos de junho de 2013, era esperado que o PT – que estava no poder desde 2003 e que se viu também envolvido em denúncias de corrupção – assumisse um papel central na narrativa crítica ao sistema partidário. Não foi à toa que, no caso Lino Peres, alguns veículos tenham enfatizado a legenda do político na chamada principal das matérias. O escândalo não estava apenas no desvio da função pública nem nos condenáveis conteúdos acessados, mas também na condição partidária do político…

Erro #5: não publicar a história completa. Diversos sites deram a foto do vereador, a denúncia de seu mal feito, e parte de sua justificativa, a suspeita de que havia vírus no computador. Muitos órgãos de mídia não informaram que o vereador comunicou à mesa diretora que a máquina apresentava comportamento estranho. Isso por uma razão muito simples: raríssimos são os veículos de comunicação de Florianópolis que cobrem as sessões do parlamento municipal! Com o enxugamento das redações e o fortalecimento dos gabinetes oficiais de imprensa, a mídia local decidiu se eximir de acompanhar o Legislativo de perto. Com isso, não tem mais setoristas na área (nem mesmo na Assembleia Legislativa!), confia nos press releases da assessoria de comunicação e replica conteúdos de terceiros, como no caso Lino Peres. Se houvesse um repórter cobrindo a sessão no plenário da Câmara em tempo real, evitariam embarcar na campanha difamatória…

Erro #6: superdimensionar a denúncia. De forma geral, a mídia funciona muito bem para espalhar escândalos e apontar problemas. Essa é uma função importante dos jornalistas, mas o que se percebe é que os espaços e tempos destinados a acusar e a pré-julgar são sempre mais fartos que os dedicados a pedir desculpas ou desfazer mal entendidos. Não é preciso comparar a quantidade das notícias de denúncia com o publicado contendo os desmentidos. A espetacularização em torno da foto comprometedora surtiu como uma condenação à atitude do político, sobrando muito pouco para o benefício da dúvida. Uma rápida pesquisa em mecanismos de busca na internet mostra que o escândalo ficou muito maior que o esclarecimento do episódio. De posse de dois laudos que atestavam sua inocência, o vereador convocou uma entrevista coletiva, mas meia dúzia de jornalistas foi ouvir a versão final da história (foto). Que imagem do vereador ficará gravada na memória coletiva? Quem não ousará fazer uso político dessa confusão informativa nas eleições de outubro próximo?

Erro #7: não admitir os erros. Infelizmente, é uma tradição do jornalismo brasileiro não reconhecer erros, retificar com clareza e ênfase, ou se retratar. Na pressa e na ânsia por informar, jornalistas atropelam reputações alheias, promovendo um grande carnaval de escândalos e denúncias, muitas vezes vazias. O Caso Lino Peres não foge à regra. O colunista do Diário Catarinense, Rafael Martini, publicou em 6 de maio a nota “Hora de pedir desculpas ao vereador Lino Peres”. A despeito do que parece, o texto com menos de dez linhas não apresenta escusas, mas terceiriza essa obrigação: “Agora, resta saber quem fotografou e distribuiu a imagem e, o mais importante, se todos aqueles que o criticaram terão a hombridez de desculpar-se”. Pois é… Embora tenha sido cuidadoso em sua nota de 28 de abril no mesmo espaço, Martini reproduziu a polêmica foto, ajudando a espalhar a suspeita contra o político…

O caso Lino Peres é um exemplo de como pretensos escândalos paroquiais podem se converter em denúncias globais na internet, catalisado pelo jornalismo preguiçoso, apressado e mal intencionado, que tem privilegiado o boato, a opinião no lugar do esforço de apuração e reportagem. Espremidas entre a ânsia de fornecer todo tipo de informação ao público e suas limitações operacionais, as redações transferem às redes sociais, aos amadores e a terceiros suas funções principais: apurar com rigor e noticiar com responsabilidade. Como as redes, os amadores e os terceiros não têm credibilidade a perder, não se ocupam dessas tarefas. O jornalismo – que afrouxa seus padrões éticos e economiza em qualidade técnica – atira contra si mesmo quando renuncia a seu papel. Isso não é bom para ninguém.
Continue a leitura››

sexta-feira, agosto 18, 2017

E... O FUTURO SE PERDEU, EM ALGUM LUGAR...

Em algum lugar se perdeu

por Fernando Horta

O jogo dos tempos é um dos grandes desencontros da história. O homem só tem o presente. O passado o é por retenção, seja da memória ou da história. O futuro não é ainda, surge somente por projeção. Ao falar do passado, temos, nas palavras de Paul Ricoeur, um “presente-ausente”. O passado não está mais ali, embora dele falemos. Este processo de falar sobre o que já não existe configura um dos espaços da memória e, quando mediado por uma narrativa de alguém diferente de mim, chama-se História.


Parece simples, afinal nada soa mais inexorável ao ser humano do que o tempo. Contudo, a política é capaz de jogar com os tempos de forma a tornar confusa a orientação de todo um grupo de pessoas. Quando eu articulo um discurso de cunho nacionalista, que rememora símbolos, cores, personagens e etc., eu trago o passado de volta através de memórias que foram coletivamente construídas. Os sentidos sociais da memória atuam como mediadores de um tempo que não existe e que, quase sempre, nunca existiu para os que se valem deles.

Este jogo, de um passado que não passa, é uma das faces da política, que, no mundo contemporâneo, tem a ajuda da comunicação instantânea. Reconstruir o passado que se quer apenas por se dispor de mais recursos materiais é a grande arma política do século XXI. Com espaço na mídia, cliques, sites, perfis falsos, notícias falsas, fazendas de “likes” e alguns milhões do dinheiro que for, é possível criar narrativas que alteram as retenções do passado. Os cidadãos comuns, imersos nos problemas do dia-a-dia, mal conseguem reter as informações do que ocorreu na semana passada, o que dirá conseguirem defender-se deste ataque político, que usa a História, sua teoria e muito dinheiro.

Da mesma forma que o passado é reconstruído sob os olhares de especialistas (historiadores) atônitos, o futuro sobre a mesma distorção. Também o futuro é constantemente reconstruído através do “horizonte de possibilidades”, na terminologia de Reinhardt Koselleck. O que eu farei amanhã, com quem almoçaremos no sábado e quantos amigos vão viajar conosco em dezembro, são apenas algumas das construções de futuro que fazem, no presente, emergir ações que não aconteceriam se não fosse este futuro imaginado. Muito provavelmente se esperamos a viagem em dezembro, nos privaremos de alguns gastos presentes. O futuro, portanto, conforme construído imageticamente no presente, transforma este mesmo presente.

Em algum lugar desta ciranda dos tempos o Brasil se perdeu. Éramos o “país do futuro” na década de 70. Viramos o país de um presente eterno na crise dos anos 80 e 90. Nada mudava, vivíamos em um looping de expropriação, fome, diferenciação social aumentando todo o tempo. Tudo o que a maioria dos brasileiros podia esperar ocorria no espaço e uma semana. Após isto, a incerteza econômica e política roubavam do Brasil qualquer plano de futuro. A partir de 2003, pela primeira vez em muito tempo, o Brasil tomava para si o seu presente. As mudanças efetivamente aconteceram entre 2003 e 2014. Indiferente ao que hoje se constrói de narrativa.

O custo de reescrever este passado foi, porém, muito alto. Ele levou a democracia brasileira, destruiu parte das nossas instituições, libertou o fascismo que pensávamos morto desde Plínio Salgado e está jogando milhões na pobreza novamente. Tudo isto feito de forma racional mediante um cálculo de custo-benefício. Os grupos que se associaram para este ataque político tinham claro que os ganhos imediatos não seriam grandes, mas haveria a interdição de um futuro no Brasil. Um futuro em que nos tornávamos um país mais igual economicamente, em que viramos a quinta economia do mundo e tínhamos um projeto claro de nação, unindo a extração de petróleo e a educação. Educação que se transformava. E transformaria o Brasil, não fossem as gerações não educadas por este novo Brasil a se rebelarem, por não reconhecerem mais o “seu país”.

Este é o sentido o golpe e das transformações desde 2013. Em primeiro lugar, reescrever o passado recente de forma a que “nunca mais aconteça”. Que o Brasil nunca mais tenha a pachorra de tentar assenhorear-se do presente. Em um segundo momento, que fiquem garantidos os privilégios dos grupos sociais ricos e brancos. Privilégios existentes desde sempre. O Brasil volta a ficar emparedado entre um passado que não passa e um futuro que nunca chega. Este é todo o desespero da parte consciente de nossa população.

Estão nos roubando muito mais do que apenas dinheiro. Estão roubando a nossa noção de futuro. O futuro deles é o passado que não queremos, e que tanto lutamos para não ver de volta. Que nossos filhos nos perdoem.
Continue a leitura››

terça-feira, agosto 08, 2017

A Venezuela da direita no Brasil

Aqui no Brasil o governo que tomou o poder num golpe político, atolado em denúncias, mudam a constituição pra ferrar o povo.

Na Venezuela, o governo eleito promove uma eleição popular pra eleger os 545 membros de uma assembleia constituinte e a mídia diz que é golpe ditatorial.

No Brasil, se você pixar #foratemer num muro será tratado como terrorista bolivariano. A polícia é idolatrada por bater em professoras.

Na Venezuela, uma minoria pratica atos terroristas, queimam pessoas vivas, e a polícia ao reprimir é acusada de servir à uma ditadura.

No Brasil há um grande acordo nacional, com empresários, banqueiros, políticos, com o STF, com tudo. E a impunidade dos associados está escancarada. 

E na Venezuela é que haveria uma ditadura porque o governo teria controle do legislativo e do judiciário?

A Venezuela estaria tomada pelo caos, cerca de 100 pessoas ja morreram este ano, dez somente nas vésperas das eleições constituintes.

No Brasil em 6 meses morreram cerca de 5500 pessoas, somente no Rio de Janeiro, quase 100 delas policiais assassinados. Onde está um caos?

Continue a leitura››

quinta-feira, agosto 03, 2017

Verdadeiro câncer do país


Continue a leitura››

A Crise na Venezuela

A questão é clara sob diversos aspectos, seja geopolítico, econômico e político, mas o debate sobre o tema em Lages é um osso duro de roer, por conta da desinformação generalizada pela mídia.


Chaves foi presidente da OPEC (1), estatizou a empresa petrolífera e nesse pulo dobrou a renda do país. A partir daí um grupo liderado pelos EUA não parou de intervir no país para desestabilizar a política e afundar a economia, o que chegou ao cúmulo há 2 anos no embargo econômico (2).


Ocorre que o país depende do petróleo e não consegue sair do problema econômico conhecido como "doença holandesa", percebido pioneiramente em 1956 pelo economista brasileiro Celso Furtado (3).

A Venezuela é o 5° maior exportador mundial de petróleo, tem a 8ª maior reserva de gás do mundo e representa o 3° maior mercado consumidor da América do Sul. Se mantivéssemos a união estratégica de países da América do Sul, o Mercosul com a Venezuela reunia 76% do PIB sul-americano. Mas claro que o governos Macri e Temer (com José Serra como embaixador) acabaram com isto, em benefício norte americano, lindo de chorar.


E mídia diante disso? Dizer que qualquer presidente eleito que enfrente os EUA é um crápula.


"Muitos meios de comunicação preferem falar dos erros do presidente Nicolás Maduro. E estão em seu direito. Mas é inadmissível que ocultem ou justifiquem os atos terroristas que estão acontecendo quase diariamente.
Não há razão para assassinar, perseguir ou insultar quem pensa diferente. Mas isso é o que está ocorrendo na Venezuela por causa de um minúsculo grupo de oposição que, paradoxalmente, em nome da democracia e da liberdade, está instaurando um regime de pânico" (4). É que se vê na imprensa internacional (5).



Culpar o Chavismo pelas mazelas econômicas mostra um profundo desconhecimento e má fé.
Continue a leitura››